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sábado, 1 de março de 2014

MAMÍFEROS DE MÉDIO E GRANDE PORTE DE UM FRAGMENTO DA MATA ATLÂNTICA NO SUDESTE DO BRASIL.

MAMÍFEROS DE MÉDIO E GRANDE PORTE DE UM FRAGMENTO DA MATA ATLÂNTICA NO SUDESTE DO BRASIL.
André Luiz de Oliveira1
Igor Soares de Oliveira2

1 - Programa de Pós-Graduação em Conservação da Natureza e Educação Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, Paraná.

2 – Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UNICAMP, Laboratório de História Natural de Anfíbios Brasileiros, Campinas, São Paulo.


RESUMO

A Mata Atlântica abriga uma grande diversidade biológica e de microambientes, com muitos táxons ameaçados de extinção, sendo um hotspot de biodiversidade. Apesar disso, ainda existe carência de informações sobre a ocorrência de espécies em escalas locais para diversos pontos de sua abrangência, criando lacunas de informação e dificultando a implantação de planos para sua preservação. Dentre os diversos grupos animais carentes de informações nesta escala, encontram-se os mamíferos, os quais são vítimas de muitas ameaças decorrentes do avanço das ações antrópicas. Sendo assim, visando gerar informações sobre a ocorrência de espécies das mastofauna de médio e grande porte em uma área da Mata Atlântica do sudeste brasileiro, investigamos ambientes distintos em um fragmento de Floresta Atlântica em uma Unidade de Conservação estadual (Parque Estadual Campina do Encantado – PECE) no município de Pariquera-Açú, no Estado de São Paulo. Foram realizadas 42 campanhas de campo entre os meses de abril e setembro de 2012, com uso de diferentes métodos de amostragens combinados (e.g. armadilhas fotográficas, armadilhas de pegadas, busca ativa) que permitiram o registro de 18 espécies de mamíferos. Leopardus tigrinus (Schreber, 1775) apresenta o status de espécie vulnerável em nível nacional e internacional de acordo IUCN, 2012. Lontra longicaudis (Olfers, 1818) é considerada quase ameaçada no estado de São Paulo (BRESSAN et al. 2009) e com deficiência de dados na lista internacional (IUCN, 2012). Cuniculus paca (Linnaeus, 1758), Metachirus nudicaudatus (É. Geoffroy, 1803) e Marmosops incanus (Lund, 1840) apresentam a categoria de quase ameaçadas, e, Galictis cuja (Molina, 1782) deficiência de dados no estado de São Paulo (BRESSAN et al. 2009), enquanto que Bradypus variegatus (Sching, 1825), é considerada regionalmente extinta do estado do Paraná (MIKICH et al. 2004). A Ordem Carnivora foi representada por sete espécies, divididas em quatro famílias, sendo que Cerdocyon thous e Procyon cancrivorus apresentaram o maior número de registros 83 e 12, respectivamente. Também foi construída uma curva de acumulação de espécies que indica a probabilidade de ocorrência de um número ainda maior de táxons. Nossos resultados sugerem que o PECE possui potencial para abrigar uma grande diversidade local, incluindo espécies ameaçadas de extinção.
Palavras-chave: Mamíferos, Mata Atlântica, Biodiversidade.

 

ABSTRACT

Atlantic Rain Forest is synonymous of great biodiversity and microhabitats, with several taxa endangered. Thus, Atlantic Rain Forest has been considered an important hotspot of biodiversity in the world. Nevertheless, there is still a lack of information on the occurrence of species at local scales for different parts of its range, with innumerous gaps of information, impairing the implementation of conservation plans. Among several groups of animals with lack of information in local scale, mammals are victims of several threats arising from human activities. Therefore, in order to generate information on the occurrence of medium and large mammals in a site of the Atlantic Forest of southeastern Brazil, herein we investigate different environments in a fragment of Atlantic Forest, (Parque Estadual Campina do Encantado – PECE) in a protected area in the municipality of Pariquera-Açú, in the State of São Paulo. Field samples were conducted between April and September 2012, using different sampling methods combined (e.g. camera traps, traps footprints, active search), we recorded 18 species of mammals. Leopardus tigrinus presents the status of vulnerable in the national and international (IUCN) redlist. Lontra longicaudis (Olfers, 1818) is considered near threatened in the state of São Paulo (BRESSAN et al. 2009). Cuniculus paca (Linnaeus, 1758), Metachirus nudicaudatus (É. Geoffroy, 1803) and Marmosops incanus (Lund, 1840) present the category of near threatened, and Galictis cuja (Molina, 1782) data deficiency in the state of São Paulo (BRESSAN et al. 2009), while Bradypus variegatus (Sching, 1825), is considered regionally extinct in the state of Paraná (MIKICH et al. 2004). Order Carnivora was represented by seven species, divided into four families, and Cerdocyon thous and Procyon cancrivorus had the highest number of records 83 and 12, respectively. Also, we constructed a species accumulation curve that indicates the likelihood of a greater number of taxa. Yet, our results suggest that the PECE has the potential to host a great local diversity, including endangered species.
Keywords: Mammals, Atlantic Rain forest, Biodiversity.


1. INTRODUÇÃO

O Brasil é um país megadiverso, composto por fitofisionomias distintas e diversificadas (CAPOBIANCO, 2002). Dentre estas, destaca-se o hotspot Mata Atlântica (MYERS et al. 2000), formado por subunidades como as Florestas Ombrófilas Densa e Mista, as Florestas Estacionais Decídua e Semi-Decídua, além de habitats conspícuos como os mangues, restingas e as formações campestres (CÂMARA, 2003).
A Mata Atlântica, originalmente cobria uma faixa litorânea desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul, mas atualmente é o ecossistema mais afetado pela fragmentação e desmatamento, restando menos de 16% de sua cobertura vegetal original, distribuída em fragmentos esparsos (RIBEIRO et al. 2009). Apesar disso, essa formação ainda abriga uma grande diversidade de espécies da flora e da fauna, inclusive com inúmeros casos de endemismos, acentuando seu valor para a conservação da biodiversidade mundial (MYERS et al. 2000; TABARELLI et al. 2005).
Dentro dos domínios da Mata Atlântica, o Estado de São Paulo foi um dos que mais sofreu com o desmatamento florestal, mas ainda hoje abriga um dos maiores contínuos de remanescentes da Mata Atlântica do Brasil (RIBEIRO et al. 2009), sendo que seus principais remanescentes se concentram na escarpa da Serra do Mar, na Serra da Mantiqueira e Região do Vale do Ribeira (SMA, 2009; GALETTI & SÃO BERNARDO, 2004).
Dentre os diversos grupos animais dessa formação vegetal, os mamíferos estão entre os mais ameaçados pelos efeitos antrópicos, sobretudo os de médio e grande porte, uma vez que necessitam de áreas de vida maiores, são tradicionalmente sujeitos à caça e são suscetíveis a danos populacionais irreversíveis (COSTA et al. 2005; SCHIEFELBEIN et al. 2005). Mamíferos desempenham um importante papel na manutenção e regeneração das florestas tropicais, com funções ecológicas vitais, sendo considerados elementos-chave na estruturação de comunidades biológicas, através dos processos de predação e dispersão de sementes, folivoria e frugivoria (CUARÓN, 2000) e posição diversificada em teias tróficas. Proteger as espécies-chaves é uma prioridade para os esforços de conservação, pois a perda de uma espécie-chave em uma área de conservação, pode gerar um efeito em cascata, levando à perda de função da unidade (PRIMACK & RODRIGUES, 2001). Desta forma, estudos com mamíferos são importantes para a avaliação e conservação de áreas protegidas, pois o grupo é considerado um indicador do estado de perturbação do ambiente (CHIARELLO, 2000; LAIDLAW, 2000).
Dessa forma, estudos que forneçam informações sobre áreas de ocorrência de mamíferos são valiosos para a conservação do grupo e de seu ambiente de vida, principalmente em Unidades de Conservação onde podem auxiliar na avaliação da sua efetividade (e.g. ARAÚJO et al. 2008; VALLADÁRES-PÁDUA et al. 2006). Estudos em campo com foco em mamíferos terrestres, particularmente mamíferos de médio e grande porte, exigem o uso de técnicas que permitam a detecção dos exemplares, mesmo sem sua visualização direta (SILVEIRA et al. 2005), sendo necessárias metodologias específicas para diferentes espécies (VOSS & EMMONS, 1996; EMMONS & FEER, 1997; PARDINI et al. 2003).
Pegadas e rastros são os sinais mais frequentemente encontrados, e permitem uma identificação confiável (muitas vezes até o nível específico). Por outro lado, outras técnicas (e.g. armadilhamento fotográfico ou busca ativa) permitem o registro visual de exemplares e também o monitoramento de determinadas áreas por períodos de tempo prolongados (VOSS & EMMNOS, 1996; WILSON et al. 1996; TOMAS & MIRANDA, 2003; NEGRÃO & VALLADARES-PÁDUA, 2006), além de servirem como ferramentas auxiliares em estudos populacionais, de territorialidade, períodos de atividade, comportamentos, deslocamentos e até interações entre espécies (BECKER & DALPONTE, 2013).
Sendo assim, considerando a carência de informações sobre a ocorrência de espécies em escalas locais para diversos pontos de sua abrangência, criando lacunas de informações e dificultando a implantação de planos para sua preservação, aliado ao avanço do desmatamento sobre o hotspot Mata Atlântica e os serviços ecossistêmicos prestados pelos mamíferos, apresentamos aqui a riqueza da mastofauna de médio e grande porte de um remanescente da Floresta Atlântica do sudeste brasileiro. Além disso, apresentamos resultados do levantamento preliminar de mamíferos de médio e grande porte, o uso de ambientes distintos no interior do fragmento e avaliamos a eficiência do Parque Estadual Campina do Encantado (PECE) na conservação das espécies.

2. Material e Métodos

2.1. Área de Estudos

O Parque Estadual Campina do Encantado apresenta uma área de 3.258,34 hectares, localizado no município de Pariquera-Açú, Estado de São Paulo (coordenadas 24ª 38’ 55” S e 47º 48’ 35” O). O parque apresenta uma grande variedade de fitofisionomias associadas aos tipos de solos do local, como Florestas de Restinga Arenosa (RA) caracterizada por vegetação secundária em terreno plano e mais elevado, predominando Cryptocaria moschata (Lauraceae), Manilkara subsericea (Sapotaceae), Astrocaryum aculeatissimum, Euterpe edulis (Arecaceae), Psidium sp (Myrtaceae) e Cecropia sp (Cecropiaceae); Floresta de Restinga Arenosa em Recuperação (RR) caracterizada por vegetação inicial devido a forte antropização, Vernonia sp (Asteraceae), Cecropia sp (Cecropiaceae), Tibouchina sp (Melastomataceae), Psidum sp (Myrtaceae); Paludosa com turfeiras periodicamente inundadas (RP), sujeita a ação hídrica fluvial nos períodos mais chuvosos, apresenta acúmulo de matéria orgânica parcialmente decomposta em função do ambiente anóxido, caracterizada por Tapira guianensis (Anacardiaceae), Nectandra oppositifolia (Lauraceae), Inga vera (Fabaceae), Rapanea sp (Myrsinaceae), Alchornea triplinervia (Euphorbiaceae) e Marlierea tomentosa (Myrtaceae), além de Florestas de Restinga Ribeirinha (RRib) permanentemente inundada, apresentado extrato herbáceo bem desenvolvido e espécies arbustivas formando dossel descontínuo, representado por Miconia sp, Leandra sp (Melastomataceae), Nectandra oppositifolia (Lauraceae), Rapanea sp (Myrsinaceae) e Myrcia multiflora (Myrtaceae) e área de Mata Ciliar (MC) correspondente ao córrego Braço feio.
Inserido na bacia hidrográfica do rio Ribeira de Iguape, faz parte do Complexo Estuarino Lagunar de Iguape, Cananéia e Paranaguá. O clima da região é do tipo Cfa (sensu Köppen), i.e., mesotérmico úmido sem estação seca, chuvoso de janeiro a março e seco de junho a agosto, com pluviosidade média anual de 1.688 mm (SZTUTMAN et al. 2002).
A área de estudos encontra-se localizada na parte oeste do PECE e abrange um total de 449,17 hectares (Figura 1). O local consiste no núcleo de visitação do PECE e apresenta diversas trilhas (trilha da Brejaúva, trilha das Palmáceas, trilha do Ingá e trilha da Campina), todas relacionadas a atividades de educação ambiental desenvolvidas no parque.

2.2.1. Coleta de dados

Realizamos 42 campanhas de campo entre os meses de abril e setembro de 2012, totalizando 96 horas/homem de atividades, sendo amostrados os  ambientes de Floresta de Restinga Arenosa, Floresta de Restinga Paludosa com turfeira periodicamente inundada, Floresta de Restinga Ribeirinha, Mata ciliar e Floresta de Restinga Arenosa em Recuperação.
Para o registro das espécies, seguimos os métodos através de busca ativa em transectos lineares propostos por BUCKLAND et al. 1993; VOSS & EMMNOS, 1996; CULLEN & RUDRAN, 2003; armadilhamento fotográfico por WILSON et al. 1996; TOMAS & MIRANDA, 2003; TROLLE et al. 2003, e armadilhas de pegadas por NEGRÃO & VALLADARES-PÁDUA, 2006; SCOSS et al. 2004; PARDINI et al. 2003; DIRZO & MIRANDA, 1990.
Para os registros fotográficos utilizamos duas câmeras fotográficas (Trophy Cam) com sensor de presença (Infrared BUSNHELL), instaladas no interior do PECE distantes cerca de 100 metros uma da outra. As câmeras foram programadas para funcionamento em modo contínuo com ajuste de cinco segundos entre fotos. As armadilhas foram armadas de modo rotativo em quatro trilhas pré-existentes no PECE, totalizando 42 pontos amostrais, onde permaneciam de 120 a 240 horas consecutivas em cada ponto. Em algumas ocasiões, foram deixadas iscas (e.g. PARDINI et al. 2003; SCOSS et al. 2004; SCHIEFELBEIN et al. 2005) para favorecer o registro dos animais.

Figura 1: Parque Estadual Campina do Encantado, no município de Pariquera-Açú, Estado de São Paulo, evidenciando a heterogeneidade de ambientes existentes no local.

As armadilhas de pegadas consistiram na disposição de caixas (50 x 50 x 03 cm) com areia fina e úmida ao longo de trilhas no interior do remanescente florestal, seguindo o proposto por DIRZO & MIRANDA, 1990 e PARDINI et al. 2003. As armadilhas foram dispostas em 36 pontos amostrais, sendo duas armadilhas por ponto. A identificação das espécies registradas por esse método foi realizada através de consultas a guias de campo específicos ou especialistas. Cada registro foi fotografado e para pegadas em bom estado foram confeccionados moldes de gesso, os quais foram destinados a especialista para identificação e posteriormente foram doados ao PECE para atividades educacionais e acervo técnico.
Outro método de amostragem foi a busca ativa em transecto linear (BUCKLAND et al. 1993), utilizada para o registro de espécies arborícolas. Durante a busca ativa, foram considerados os registros diretos e indiretos da presença de mamíferos. As observações diretas consistiram no registro visual e/ou auditivo de espécimes durante o percurso de transectos em trilhas existentes no PECE. Os transectos foram percorridos em horários compreendidos entre 8h e 16h e 18h e 7h. O percurso era percorrido através de caminhada com velocidade média de 1km/h, com duração variada, duas vezes por semana. As amostragens indiretas, por sua vez, compreenderam os registos como restos mortais, fezes, pegadas em solo argiloso, tocas e marcas em árvores, observados durante o percurso dos transectos.
Para os dados registrados em campo, anotamos data, hora, coordenadas, tipo de registro, medidas, espécies, número de exemplares e, quando possível, efetuamos o registro fotográfico.

2.2.3. Análises

A fim de avaliarmos a relevância do PECE para a conservação da mastofauna, comparamos o status de ameaça das espécies registradas em diferentes listas estaduais, nacional e global.
Para avaliar a eficiência da amostragem, construímos uma curva de acumulação de espécies com estimador jackknife, de acordo com a ocorrência (presença e ausência) por campanha dos táxons registrados, independentemente do método de amostragem (COLWELL, 2006).
Para verificar a relação de similaridade entre ambientes através da composição específica entre os pontos amostrados utilizamos o índice de similaridade de Jaccard com a posterior construção de um dendrograma por análise de agrupamento com o algoritmo UPGMA (KREBS, 1999), sendo consideradas áreas altamente similares aquelas com Cj ≥ 0,80.

3. Resultados

Através dos métodos utilizados identificamos 18 espécies de mamíferos silvestres com ocorrência no PECE, sendo as espécies agrupadas em sete ordens (Carnivora, Primates, Artiodactyla, Rodentia, Cingulata, Didelphimorphia e Pilosa) compreendendo 13 famílias (Canidae, Procyonidae, Mustelidae, Felidae, Atelidae, Cervidae, Sciuridae, Erethizontidae, Cuniculidae, Dasypodidae, Didelphidae, Bradypodidae e Myrmecophagidae).
O esforço amostral consistiu na utilização de 366 armadilhas fotográficas/dia resultando em 8.784 horas de monitoramento através de armadilhamento fotográfico, 13.176 armadilhas de pegadas em parcelas de areia, e 96 horas de percurso de transectos em observações diretas e indiretas em períodos alternados.
O armadilhamento fotográfico possibilitou o registro de 14 das 18 espécies de mamíferos de médio e grande porte, correspondendo a 77,7% da amostragem, sendo cinco Carnivora, um Artiodactyla, dois Rodentia, um Cingulata, três Didelphimorphia e dois Pilosa. Três espécies foram identificadas somente por este método, sendo dois Didelphimorfia (Metachirus nudicaudatus e Mamosops incanus) e um Pilosa (Tamandua tetradactyla). Ainda dentre as espécies identificadas por esse método, Cerdocyon thous (n=83), Cuniculus paca (n=18) e Procyon cancrivorus (n=12) foram amostrados em todos os ambientes estudados e apresentaram a maior abundância em número de registros, com período de atividade sempre noturno. Por outro lado, Dasypus novemcinctus (n=8), Didelphis aurita (n=8), Guerlinguetus ingrami (n=8), Eira barbara (n=6), Mazama gouazoubira (n=5), Galictis cuja (n=3), Leopardus tigrinus (n=2) e Tamandua tetradactyla (n=1) foram os menos abundantes em número de registros, respectivamente. A espécie M. gouazoubira apresentou registros apenas em ambiente antropizado em fase de recuperação (RR) e G. cuja, foi registrado somente em RA, não sendo observados em outros pontos amostrais.
Através da observação direta e indireta durante o percurso de transectos lineares, foram registras nove das 18 espécies identificadas, correspondendo a 50% dos registros, sendo três Carnivora, um Primata, dois Rodentia, um Pilosa, um Didelphimorphia e um Cingulata. Alouatta sp (Bugio), apresentou (n=11) registros através de vocalização no interior do remanescente florestal (RP), não possibilitando sua identificação em nível específico. Através do método de observação direta e indireta por percurso de transecto linear registramos ainda quatro espécies, sendo um Carnívoro (Lontra longicaudis), um Primata (Alouatta sp.), um Pilosa (Bradypus variegatus) e um Rodentia (Sphiggurus villosus). A espécie Bradypus variegatus (n=2) foi observada se deslocando sobre o solo entre o remanescente florestal, e também em deslocamento sobre um indivíduo arbóreo de Alchornea triplinervia.
O método de armadilhas de pegadas em parcelas de areia forneceu o registro de oito das 18 espécies registradas, correspondendo a 44,44% do total de registros, sendo seis Carnivora, um Artiodactyla e um Rodentia. Este método possibilitou o único registro do carnívoro Nasua nasua.
Com relação às espécies identificadas no parque, relacionando ao nível de ameaça aos quais cada espécie está sujeita e comparando as listas oficiais de espécies ameaçadas de extinção no estado de São Paulo, listas nacionais e internacionais, Leopardus tigrinus (Schreber, 1775) apresenta o status de espécie vulnerável no estado de São Paulo (BRESSAN et al. 2009) em nível nacional (CHIARELLO et al. 2008) e internacional (IUCN, 2012).
Lontra longicaudis (Olfers, 1818) é considerada quase ameaçada no estado de São Paulo (BRESSAN et al. 2009) e com deficiência de dados na lista internacional (IUCN, 2012).
As demais espécies, Cuniculus paca (Linnaeus, 1758), Metachirus nudicaudatus (É. Geoffroy, 1803) e Marmosops incanus (Lund, 1840) apresentam a categoria de quase ameaçadas, e, Galictis cuja (Molina, 1782) deficiência de dados no estado de São Paulo (BRESSAN et al. 2009), enquanto que Bradypus variegatus (Sching, 1825), é considerada regionalmente extinta do estado do Paraná (MIKICH et al. 2004).




Tabela 1: Espécies de mamíferos registrados no Parque Estadual Campina do Encantado com nome vernacular, espécie, hábito alimentar, tipos de registros (RF: registro fotográfico, RV: registro visual, RP: registro de pegadas e Rvo: registro por vocalização e categorias de ameaça). (LC: preocupação menor, NT: quase ameaçado, DD: deficiência de dados e VU: vulnerável.



A curva de acumulação de espécies construída em função da ocorrência de espécies por campanha não apresentou tendência a uma assíntota mostrando variação ao final das amostragens, com riqueza estimada acima de 20 espécies (Figura 1).






Figura 1: Curva de acumulação de espécies apresentando a riqueza teórica calculada com estimador jackknife (linha pontilhada) e a riqueza observada (linha contínua) para mamíferos de médio e grande porte do Parque Estadual Campina do Encantado.

Através da análise de similaridade entre ambientes pela presença de espécies é possível observar que a Floresta de Restinga Paludosa (RP) e a Floresta de Restinga em Recuperação (RR) formam um agrupamento com similaridade de quase 0,7, ou 70%. Já a Mata Ciliar (MC) apresentou cerca de 60% de similaridade com a Floresta de Restinga Arenosa (RA). A Floresta de Restinga Ribeirinha apresentou baixa similaridade com as demais, constituindo um grupo externo.



Figura 2: Similaridade (índice de Jaccard) entre os diferentes ambientes amostrados com base na composição específica da mastofauna do Parque Estadual Campina do Encantado (RRib: Floresta de Restinga Ribeirinha, MC: Mata Cliar, RA: Floresta de Restinga Arenosa, RP: Floresta de Restinga Paludosa, RR: Floresta de Restinga em recuperação).


4. Discussão

O Brasil apresenta uma diversidade de 688 espécies de mamíferos (REIS et al. 2011), sendo que a mastofauna do Estado de São Paulo é formada por 231 espécies, o que representa mais de um terço da lista de mamíferos conhecidos para o Brasil (DE VIVO et al. 2010). Sendo assim, as espécies registradas nesse trabalho representam quase 3% da riqueza nacional e cerca de 8% da riqueza de mamíferos para o Estado de São Paulo (REIS et al. 2011; DE VIVO et al. 2011).
Apesar de não termos utilizado métodos de coleta específicos para o registro de pequenos mamíferos, registramos duas espécies consideradas de pequeno porte (Marmosops incanus (Lund, 1840) e Guerlinguetus ingrami (Thomas, 1901), pois apresentam massa corporal inferior a dois quilos. Isso demonstra a importância do uso de métodos complementares de registro e comprovando sua eficiência.
A ausência de um maior número de registros de mamíferos de grande porte ameaçados (e.g. Tapirus terrestres, Panthera onca ou Puma concolor) nas dependências do Parque durante o período de amostragem, pode estar relacionada à necessidade de maiores amostragens em diferentes locais do PECE, pois algumas dessas espécies ocorrem naturalmente em baixa densidade populacional e servem como indicadores da integridade ambiental (EMMONS & FEER, 1997).
A respeito de algumas espécies registradas no PECE, o carnívoro Cerdocyon thous (Linnaeus, 1758), é uma espécie de canídeo com ocorrência em quase todo o território brasileiro, exceto partes do Amazonas (VAZ et al. 2011). É encontrado em áreas de florestas e campos. Apresenta hábito preferencialmente noturno, deslocando-se solitário ou aos pares em trilhas, bordas da mata e estradas a procura de alimento. Durante os estudos, foi encontrado em todos os ambientes amostrados, avistados sempre aos pares, foi a espécie que apresentou o maior número de registros, corroborando com os trabalhos descrito por ROCHA et al.2004.
Já a espécie Mazama gouazoubira (Fischer, 1814), apresentou maior registro em área aberta em fase de regeneração natural, durante deslocamentos por trilhas, como também observado por DUARTE et al. 2012. É Considerada uma espécie de alta plasticidade ecológica, se adaptando a ambientes com alta interferência antrópica, preferindo áreas de vegetação densa com extratos vegetais inferiores (herbáceas-arbustivas) e em áreas de regeneração (DUARTE et al. 2012).
Procyon cancrivorus (Cuvier, 1798), foi encontrado em todos os ambientes, geralmente em locais próximos à água. De acordo com EINSENBERG et al. 1981, esta espécie habita áreas florestais próximas a banhados, rios, manguezais e praias, pois costuma forragear à procura de moluscos e peixes. Durante um deslocamento por trilha foi avistado um indivíduo se alimentando de um crustáceo, o que corrobora com o proposto por EISENBERG et al. 1982 para o comportamento a espécie.
Em relação ao primata do gênero Alloutta (Lacepéde, 1799) são espécies sociais que formam grupos e mostram grandes variações na sua composição sexo-etária, figuram entre os maiores primatas neotropicais, com peso variando de 4 a 7 kg, consideradas como espécies folívoras (MIRANDA & PASSOS, 2005ª; MIRANDA & PASSOS, 2005b). Os registros obtidos foram exclusivamente através de vocalização não sendo possível sua identificação em nível especifico, embora ocorra com frequência no PECE.
A espécie Bradypus variegatus (Schinz, 1825), foi avistada no solo durante um deslocamento, sendo considerada de ampla distribuição geográfica e encontrada com frequência na Mata Atlântica (PEREIRA, 2011). Não está relacionada na lista de espécies ameaçadas no estado de são Paulo, contudo, no estado do Paraná é considerada regionalmente extinta de acordo com MIKICH, et al. 2004.
A espécie Cuniculus paca (Linnaeus, 1758), é considerada uma espécie noturna e generalista quanto à dieta, alimentando-se principalmente de frutos disponíveis no decorrer das estações (ZUCARATTO et al. 2010). A espécie foi registrada em quase todos os ambientes amostrados, exceto em área de regeneração. O maior número de registros ficou associado às proximidades de cursos d´água.
Leopardus tigrinus (Schreber, 1775), foi amostrado somente no ambiente de Floresta de Restinga arenosa. É considerado o menor felino do Brasil, apresentando habito solitário e predominantemente noturno (OLIVEIRA & CASSARO, 2005). Encontra-se inserido na categoria de espécie vulnerável em nível nacional e internacional (IUCN). Os dados obtidos através de armadilhamento fotográfico em período noturno são semelhantes aos discutidos por EMMONS & FEEER, 1997; OLIVEIRA & CASSARO, 2005; MOTTA et al. 2009.
Eira barbara (Linnaeus, 1758), mamífero de médio porte, (REIS et al. 2011), foi registrada nas três unidades amostradas, Floresta de Restinga Arenosa, Floresta de Restinga em Recuperação e Mata ciliar, sendo esta última através de observação direta. É considerada uma espécie solitária, com atividades durante o dia (EMMONS & FEER, 1997; EISENBERG et al. 1999; REIS et al. 2011). Os registros obtidos demonstraram que a espécie se desloca pelo PECE em períodos alternados, sendo obtidos registros de deslocamentos em trilhas durante o período noturno.

Didelphis aurita (Wied-Neuwied, 1826), foi registrado em todos os ambientes amostrados, são espécies solitárias, hábitos noturnos e generalistas, incluindo pequenos invertebrados e frutos, apresentam ampla distribuição geográfica e podem apresentar variações na dieta entre diferentes biomas ou habitats (LESSA et al. 2010; CÁCERES et al. 2004).

Lontra longicaudis (Olfers, 1818), carnívoro de hábito semi-aquático, é considerado de ampla distribuição geográfica (EISENBERG et al. 1999), apresentado hábito alimentar incluindo peixes, moluscos e crustáceos (REIS et al. 2011; SOUZA et al. 2007) sua dieta também pode incluir pequenos insetos (ALMEIDA et al. 2008). Todos os registros na área de estudo foram através de observações diretas no córrego do Braço Preto.

Guerlinguetus ingrami (Thomas, 1901) é um roedor do tipo Scatterhoarder, que armazena seus suprimentos em depósitos espalhados dentro da sua área de vida e possui, portanto, comportamento essencial para a dispersão e recrutamento de espécies vegetais (RIBEIRO & TABARELLI, 2010). É considerado mamífero de pequeno porte, com peso corporal < 1 kg (REIS et al. 2011). Os registros da espécie foram obtidos através de observações visuais em trilhas do PECE, (Floresta de Restinga Arenosa) durante forrageio e predação de Syagrus romanzoffiana. O espécime também foi registrado em forrageio no solo, através de registro em armadilhamento fotográfico.

Galictis cuja (Molina, 1782) foi registrado em área de Floresta de Restinga Arenosa através de armadilhamento fotográfico. Sua distribuição geográfica abrange a região sul e sudeste do Brasil (REIS et al. 2011), são principalmente crepusculares e noturnos, habitam florestas e áreas abertas, abrigando-se em tocas abandonadas ou cavadas (EISENBERG & REDFORD, 1999).

Sphiggurus villosus (F. Cuvier, 1823), foi encontrado abatido no interior do remanescente florestal, em área de Floresta Restinga Arenosa, apresentando marcas pelo corpo de um possível confronto. Apresenta uma distribuição geográfica no Brasil abrangendo os estado do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, incluindo Minas Gerais (REIS, et al. 2011) em formações florestais de Mata Atlântica (BONVICINO et al. 2008).
Com relação aos métodos de amostragem, o armadilhamento fotográfico apresentou o maior índice de registros em comparação com os outros métodos utilizados, mostrando-se eficaz para detectar espécies com hábitos variados. Além disso, esse método também possibilitou o registro de uma espécie arborícola (G. ingrami) durante forrageio em solo, mostrando-se um método promissor. As observações diretas e indiretas com percurso em transectos lineares também se mostraram eficazes, pois apresentaram o registro exclusivo de alguns táxons (e.g. Lontra longicaudis), ao passo que as armadilhas de pegadas, apesar de menos eficientes, constituem um método de baixo custo e deve ser mantido em estudos futuros.
Sendo assim, os três métodos associados se mostraram satisfatórios para um estudo preliminar no PECE. Contudo, o aumento do esforço amostral e estudos prolongados, abrangendo uma área maior e incluindo um maior número de equipamentos possui potencial para um inventariamento mais completo da mastofauna do parque, sobretudo para o registro de espécies com hábitos crípticos e de menor densidade.
Com relação ao status de ameaça das espécies registradas no presente estudo, no Brasil 69 espécies de Mamíferos estão oficialmente ameaçadas, representando 10,02% das 688 espécies nativas. No entanto, apenas seis estados já produziram suas listas de espécies ameaçadas (Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro), sendo que em alguns estados determinadas espécies ameaçadas não constam na lista nacional, (e.g. Bradypus variegatus) considerada Regionalmente extinta no Paraná, não aparece ameaçada no Estado de São Paulo ou na Lista Nacional. Este cenário evidencia a carência de políticas públicas eficientes de proteção à fauna, especialmente mamíferos, uma vez que o grupo presta serviços ecossistêmicos essenciais.
O PECE abriga quatro espécies consideradas quase ameaçadas, e uma vulnerável, o que demonstra sua importância como unidade de conservação e seu papel como corredor ecológico.
Com base no estimador de riqueza Jackknife (riqueza teórica calculada esperada para a área de estudos) e ainda, na curva de riqueza observada, é possível dizer que ausência da assíntota demonstra a necessidade de um inventariamento de longo prazo em busca de novos registros. O PECE se liga à Estação Ecológica dos Chauás, através de corredores ecológicos, delimitado por divisas naturais, através do rio Pariquera-Açu, rio Braço Preto, rio Pariquera-Mirim e rio Ribeira de Iguape, um aumento do esforço amostral, através de estudos mais prolongados, recursos financeiros e mais equipamentos certamente otimizaria o registro de mais espécies para a localidade.
Com relação ao índice de similaridade de Jaccard, observamos que as áreas analisadas apresentam baixa similaridade (todas abaixo de 70% similares) entre si, o que pode indicar a oferta de recursos distintos para as diferentes espécies de mamíferos que as habitam (e.g. oferta de alimento, abrigo, disponibilidade de água).

5. Considerações finais


O PECE apresenta uma fauna de mamíferos de médio e grande porte representativa para o Estado de São Paulo, e seu propósito como Unidade de Conservação parece estar sendo cumprido, uma vez que abriga indivíduos inseridos em listas oficiais de espécies ameaçadas de extinção. A maior parte destas espécies registradas são comuns, de ampla distribuição e com alta plasticidade ecológica, hábitos variados e que prestam diversos serviços ao ecossistema (e.g. dispersão de sementes).
O método de armadilhamento fotográfico apresentou os melhores resultados de modo satisfatório no levantamento, se comparando aos outros dois métodos complementares. Contudo, os demais métodos também foram importantes e devem ser mantidos em estudos futuros.
A continuidade de estudos futuros deve fornecer novos registros de espécies de mamíferos de médio e grande porte para o PECE.
As áreas analisadas apresentam baixa similaridade com relação à composição de espécies de mamíferos de médio e grande porte.
Desde sua criação este foi o primeiro estudo a investigar a fauna de mamíferos de médio e grande porte no PECE de forma sistematizada, abordando diferentes técnicas de amostragens. Sendo assim, o presente estudo possui um papel preponderante para ações de conservação locais futuras.

6. Agradecimentos

A todos os colegas que participaram do Curso de Especialização em Conservação da Natureza e Educação Ambiental da PUCPR que me ajudaram direta ou indiretamente na execução deste trabalho. A Jéssica Miranda pelo auxílio na elaboração do Mapa do Parque, A Renan Silva, Monitor Ambiental, que me acompanhou nas atividades de campo, A bióloga Marcia Santana de Lima, Gestora do Parque Estadual, que possibilitou a execução deste trabalho, Aos Pesquisadores Prof. Drº Nilton Cáceres (UFSM) pela identificação de Marsupiais, Prof. Drº José Maurício Barbanti (UNESP – NUPECCE) pelas informações e identificações de Cervídeos, Ao Prof. Drº Júlio Leite (Museu Capão da Imbuia), pela identificação das espécies e esclarecimentos. Aos funcionários do PECE pelo apoio logístico e informações necessárias na elaboração das metodologias de campo.

7. Anexos





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